Lenda do Castelo de Santa Maria da Feira (Episódio 4)

Lenda do Castelo de Santa Maria da Feira

LENDA DA TOMADA DO CASTELO PELOS CRISTÃOS

Episódio 1
1. A bondade de Lia
2. O estratagema de Ben Iussef
3. O casamento da cristã com o mouro
Episódio 2
4. O conspirador e o crime
5. A transfiguração de Lia
6. O plano da vingança
Episódio 3
7. Estranhos acontecimentos
8. O encontro do assassino com a velha da água
Episódio 4
9. A realização da profecia
10. O assalto do castelo
11. A fuga de Ben Alígula

Episódio 4

9. A realização da profecia

Retirou-se Ben Alígula atordoado pelo tom de sinceridade e de verdade que a Velha imprimia às suas palavras. Não queria dar crédito ao que ouvia, mas uma dúvida o atormentava: não tinha ela falado verdade em tudo quanto lhe havia dito sobre o passado?

Mas consolava-se procurando convencer-se de que no seu quarto, desde que trancasse bem as portas e janelas, nada ali podia penetrar.

Chegado ao castelo, encaminhou-se logo para o quarto, onde passou uma minuciosa busca. Ali tudo foi mexido e remexido, não fosse existir alguém combinado com a Velha (não tinha ela dito que dentro do castelo havia traidores?) ter lá introduzido o Cristo.

Tudo examinado, os móveis tirados e novamente postos nos seus lugares, portas e trancas experimentadas, nada foi encontrado que desse razão à mais pequena suspeita.

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– À fé da minha alma, juro-te que o crucificado de manhã será contigo.

Esta afirmação da velha feita em tom tão convincente transtornava-o. Se ela não tivesse lido isto nos astros, atrever-se-ia a garanti-lo, sabendo que esta afirmação em falso lhe custaria a vida? E se o crucificado aparecesse? Ainda poderia duvidar do que tinha ouvido?

Ele tinha medo da cruz. Quando se lembrava da profecia da Velha, sentia-se horrorizado e fechava os olhos para não ver nada. Mas não, as portas do seu quarto não podiam ser abertas por ninguém.

Eram tão sólidas que resistiriam a todas as investidas, e, desde que não fossem abertas, como poderia o Cristo estar com ele de manhã?

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Chegada a hora de se deitar, nova e minuciosa inspecção foi feita. Não ficou canto nem móvel que não fosse visto.

Certo da segurança das portas e fechaduras, exclamou: Não te salvas do fogo, velha feiticeira. Os teus dias estão contados.

Encheu a candeia de azeite para que pudesse arder toda a noite e deitou-se.

– Jineff, untaste bem as dobradiças da porta falsa?

– Sim, minha irmã.

– Tens a cana preparada?

– Tenho, irmã.

– Como está arranjado o buraco?

– Tapado com cera da cor da mesma pedra. Não é visível.

– Bem, atua com toda a prudência. Do bom resultado do que vamos fazer depende a minha vida e o teu futuro.

– Não estejas preocupada, irmã. Estou certo de que me hei-de sair bem.

– Santa Maria velará por nós.

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Altas horas da noite, levando numa mão uma comprida cana furada em toda a sua extensão e na outra o crucificado, Jineff penetrou numa extensa galeria que ia dar ao quarto de Ben Alígula e cuja existência este desconhecia.

Às apalpadelas subiu o último degrau, tirou um bocado de cera que tapava um pequeno orifício e espreitou. Alígula parecia dormir. A candeia estava ao alcance da cana. Esperou mais algum tempo até ter a certeza de que ele efetivamente dormia.

Depois meteu a cana pelo buraco e soprou, apagando a luz. Afastou então uma pesada pedra que girava numas dobradiças e penetrou no quarto onde introduziu o Crucificado, colocando-o sobre um banco a olhar de frente para o mouro.

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Sem qualquer ruído, puxou a pedra e pô-Ia novamente no seu lugar, retirando-se em seguida.

Quando Ben Alígula acordou e se viu às escuras, ficou cheio de medo. Querendo saber a razão da falta de luz, levantou-se e procurou a candeia para se certificar se se teria consumido todo o azeite, mas ao encontrá-Ia os dedos mergulharam no óleo e ele percebeu que o motivo daquela escuridão era outro.

Não pode mais dormir e a sua imaginação mostrou-lhe coisas fantásticas. Na verdade, reconheceu que algo de extraordinário tinha acontecido.

Ao raiar da manhã, ainda no meio de uma confusa escuridão, pareceu-lhe divisar uma figura estranha que o fitava… Mas não, não seria possível.

No entanto, à medida que a claridade ia dando forma aos objectos, a sua confusão aumentava e o seu espanto perturbou-o de tal modo que julgou ter enlouquecido.

Para fugir àquela visão, agarrou num cobertor e atirou-o para cima do Crucificado, furtando-se assim à visão que o esmagava.

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10. O assalto do castelo

Entretanto, Lia tinha mandado emissários a juntar todos os rebanhos da cristandade com instruções para que se reunissem nas proximidades de Cale e ordenou que fossem compradas todas as velas que existissem no mercado, velas estas que seriam, na ocasião própria, amarradas aos chifres dos caprinos e ovinos.

A estes rebanhos, conduzidos por alguns soldados, estava confiada a conquista do castelo.

Eis o plano de ataque: ao atingir-se o monte de Corujeiras, acender-se-iam as velas e os rebanhos, espalhados por uma vasta área a dar impressão de um numerosíssimo exército, pôr-se-iam em movimento em direção ao castelo. Os animais da frente iam cobertos com peles de lobos e ursos.

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No castelo, os mouros convertidos por Lia, conhecedores do que se passava, tinham ali estabelecido o pânico.

Há dias que eram espalhadas notícias aterradoras. «Um exército com poderosas armas desconhecidas acompanhado por lobos e ursos amestrados não tardaria a atacar o castelo.»

Ben Alígula, perante tão assustadoras notícias, abalado pelas profecias da Velha, a maior parte das quais já tinha visto realizadas, tomou as providências necessárias para, a confirmarem-se as notícias que recebia, ordenar a fuga para Coimbra.

Mandou os seus espias até às proximidades de Cale a colher informações pormenorizadas de tudo quanto se passava. Esses espias, ao verem acampados na frente do exército, lobos e ursos, ficaram estarrecidos.

«É um exército estranho que reúne muitos lobos e ursos, conduzidos por numerosos soldados. Fazem-se ali os últimos preparativos para avançar sobre o castelo e cercá-lo. Vêm preparados para um longo cerco, pois trazem um rebanho que lhes dará alimento para mais de um ano.

Se conseguirem forçar alguma das nossas portas e introduzirem aqui os carnívoros que trazem, todos seremos poucos para lhes matar a fome.

Contra tal exército de nada valerá a valentia dos nossos soldados».

Ben Alígula, ao ouvir isto, sentiu-se derrotado. À sua memória, ocorreram-lhe as palavras da Velha: «As portas da tua fortaleza não serão forçadas pelos teus inimigos, ser-Ihes-ão abertas de par em par pelos teus soldados.

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Dentro do castelo há traidores que por bem pouco se comprometeram a vender-te.»

Então, por descarga de consciência, reuniu um conselho de guerra em que teve opinião predominante Jineff, sendo resolvido não aceitar a batalha e ordenar a retirada imediata para Coimbra.

11. A fuga de Ben Alígula

Ao anoitecer de um quente dia de agosto, com todas as velas acesas, pôs-se o exército atacante em marcha, alongando-se num grande semicírculo.

Ferros a bater, tambores a rufar, uivos, um grande alarido tornava aquele espetáculo medonho, sinistro…

Antes do romper da manhã, sem qualquer oposição dos defensores do castelo, foi fechado o cerco à fortaleza e de manhã, ao romper do sol, dada ordem para forçar as suas portas, mas a esta hora já os mouros iam longe.

Lia aguardava a chegada de Jineff para o investir nas funções de alcaide do castelo, mas aqui um grande desgosto a esperava: ele não apareceu. Não era algo que desejava ser.

Com a tomada do castelo estava consumada a vingança de Lia e pela forma que o seu espírito verdadeiramente cristão admitia: vingança sem sangue, sem vítimas. Vingança sem rancor, sem ódio, vingança sem vingança.

Lenda do Castelo de Santa Maria Feira

Depois de em vão, muito tempo ter esperado a vinda de Jineff, entregou a guarda do Castelo a uma pequena guarnição e retirou-se para casa de seu pai e na ermida agradeceu à Virgem a ajuda, o auxílio visível que ela lhe tinha dado para alcançar tão grande vitória sobre os mouros.

Esta vitória foi atribuída a Santa Maria. Será por isto que a estas terras foi dado o nome de Terras de Santa Maria?

De Lia também alguma coisa nos ficou através dos séculos a perpetuar o seu nome.

A água que abastece a povoação da Vila da Feira e tem a sua nascente no local onde ela passou algum tempo da sua vida a preparar a expulsão dos mouros tomou e conserva ainda hoje o seu nome: Água da Velha.

Adaptação do texto de “O Castelo da Feira na História e na Tradição (contos e lendas), Prof. Carlos Gomes dos Santos e Silva (junho de 1970, N.9, Publicação Semestral da Junta Distrital de Aveiro)

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