LENDA DO CASTELO DE SANTA MARIA DA FEIRA (Episódio 1)

Lenda do Castelo de Santa Maria da Feira

LENDA DA TOMADA DO CASTELO PELOS CRISTÃOS

Episódio 1
1. A bondade de Lia
2. O estratagema de Ben Iussef
3. O casamento da cristã com o mouro
Episódio 2
4. O conspirador e o crime
5. A transfiguração de Lia
6. O plano da vingança
Episódio 3
7. Estranhos acontecimentos
8. O encontro do assassino com a velha da água
Episódio 4
9. A realização da profecia
10. O assalto do castelo
11. A fuga de Ben Alígula

Episódio 1

1. A bondade de Lia
Ben Iussef era o governador do Castelo. Entre ele e Cale, terra em poder dos cristãos, havia uma espécie de terra de ninguém que separava as duas comunidades.

A fama de que em Cale um rico homem tinha uma filha dotada de grande beleza e ainda maior bondade, que todos os dias distribuía aos necessitados que a procurassem junto a uma pequena ermida consagrada a Santa Maria, tinha chegado ao Castelo.

Ben lussef levado pela curiosidade, quis certificar-se do que poderia haver de verdade nas informações que recebia dos seus espias. Vestido de pedinte, aproximou-se de Lia (assim se chamava a filha do rico homem) a esmolar um bocado de pão.

Lenda do Castelo de Santa Maria Feira

A beleza da donzela logo o fascinou e ele passou a ser um dos seus pobres mais assíduos, não obstante uma imposição que ela fazia aos seus protegidos: logo após a refeição, todos tinham de entrar na ermida para dar graças a Deus.

Ben lussef não sabia orar, mas logo assumiu o compromisso de aprender a rezar com a donzela. Depois de ter aprendido era ele que aos olhos de Lia rezava com mais fervor.

Durante muito tempo recebeu das mãos da sua benfeitora uma farta refeição e na ermida fez as suas orações.

Com esta prolongada convivência nasceu no mouro uma grande paixão que já não podia reprimir por mais tempo. Então, um pensamento lhe tomou conta da mente: Lia havia de ser sua.

Mas como, se ele lia no Alcorão e ela nos Evangelhos de Cristo?

Falar-lhe de sua paixão? Seria deitar tudo a perder, podia até ser o fim das tréguas em que há muito viviam mouros e cristãos. Mas ele não era homem para recuar ou desistir diante de uma dificuldade.

2. O estratagema de Ben Iussef
A sua imaginação fértil em estratagemas, mostrou-lhe como seria possível conduzir Lia ao Castelo sem correr grandes riscos, nem perturbar as suas relações com os cristãos.

Entre Cale e o lugar que hoje chamamos Areinho, completamente despovoado naquele tempo, havia um denso bosque que lhe facilitaria os seus planos de rapto.

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Depois de bem estudado o local e demarcado um trilho através da floresta que lhe dava saída para a terra de ninguém, mandou por um seu súbdito, disfarçado de cristão, e que bem conhecia a sua língua, construir nos estaleiros de Cale um barco que pudesse transportar três cavalos com os seus cavaleiros.

Este barco, depois de construído, foi levado para o referido local do Areinho e ali ficou a aguardar as ordens de lussef. Entretanto o mouro mandou aparelhar seis cavaleiros a quem deu as seguintes instruções: ao fim da tarde, Lia será surpreendida na ermida e, num golpe rápido, amordaçada e de olhos vendados, posta sobre um dos cavalos e logo encaminhada na direção do barco.

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Antes, porém, a meio da floresta, sair-lhe-ão ao encontro os outros três cavaleiros que, para o efeito, ficarão emboscados e tomarão conta dela, internando-se imediatamente no denso arvoredo.

Entretanto os primeiros, agora vagarosamente para que possam ser vistos e seguidos pela multidão que, é de esperar, acorrerá, se aproximarão do barco, nele se embarcando em direção à outra margem, para despistar, levando com eles um vulto que, visto à distância, dê a ideia de ser Lia.

Enquanto a multidão ficará a vociferar contra os do barco, Lia pelos caminhos previamente estudados, será conduzida ao castelo.

Acalmado o tumulto, os do barco, depois de o terem abandonado à corrente que o levará para o mar, regressarão à fortaleza.

Assim foi feito e tudo correu conforme o imaginado.

Quando tiraram a mordaça e a venda a Lia, já ela estava no castelo na presença de lussef – aquele pobre a quem ela às sextas-feiras dava de comer.

Ao ver-se prisioneira no castelo à mercê daquele pedinte, agora mudado em poderoso mouro, mal teve tempo de implorar a protecção da Virgem Santa Maria da Sua ermida. Uma forte convulsão a sacudiu e caiu inanimada.

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Grande foi a aflição de lussef que logo chamou os seus médicos para a reanimar. Quando voltou a si, interpelou violentamente o mouro:

– Vilão, como te atreveste a cometer tal infâmia, sabendo que eu era cristã e que por isso nem com promessas, nem com ameaças, nem com torturas consentiria que te aproximasses de mim?

De mim nunca nada alcançarás. E, para que morram em ti tão depressa as tuas esperanças como em mim morreu a liberdade, com o fim da minha vida, tudo se acabará para ti neste momento.

Dizendo isto, num repelão, lançou-se contra Iussef e, arrancando-lhe a adaga do cinto, com ela se feriu profundamente no peito, caindo inanimada a jorrar sangue.

Tudo isto foi tão rápido que ninguém pode impedir este tresloucado gesto de Lia.

3. O casamento da cristã com o mouro
Durante muito tempo inconsciente, esteve entre a vida e a morte: mas os cuidados, carinho e atenções que lussef lhe dedicou e, sobretudo o respeito com que por ele foi tratada, salvaram-lhe a vida e restituíram-lhe a saúde.

Lia assim tratada, já não olhava o mouro com ar zangado, já não o repelia.

Confiante nas promessas que ele lhe fizera, pedia-lhe que estivesse junto de si para a ajudar a rezar. Logo que pôde, mandou um mensageiro a seu pai, contando-lhe o que se havia passado, mas que se achava bem e que dentro em pouco estaria com ele.

De facto, poucos dias depois Ben lussef fez conduzir Lia a casa de seu pai, onde disfarçadamente passou a visitá-la.

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Lia, durante a sua permanência no castelo, tinha-se mostrado tão firme na sua crença, tão confiante na proteção da Virgem da sua ermida, e rezava com tal fervor que Ben lussef, perante aquela fé viva, sentiu-se tão abalado que acabou por abdicar o Alcorão e abraçou o Cristianismo.

Feito cristão por amor de Lia debaixo do maior segredo, pediu a sua amada em casamento. Realizado este também secretamente, Lia voltou ao castelo.

A sua beleza, a sua dignidade, a sua bondade nata, conquistaram a guarnição e ela soube aproveitar-se desta circunstância para, embora muito discretamente, ir introduzindo ali a semente do Evangelho. A paz entre cristãos e mouros era completa e Lia sentia-se feliz.

O tempo ia decorrendo sem que nada perturbasse aquela felicidade, mas para que mais uma vez se constatasse o ditado que diz «não há bem que sempre dure».

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